Depois de uma das temporadas de premiação mais longas e caóticas da história (mais uma cortesia da Pandemia da Covid-19), o Oscar finalmente chegou! Na noite de 25 de Abril de 2021, apaixonados por cinema de todo o mundo se sentarão em seus sofás e entre vestidos chiquérrimos e discursos inspirados, conhecerão os melhores filmes, atores e atrizes de Hollywood em 2020… ou talvez não. Quem acompanha o Oscar pra valer deve ter acumulado ao longo dos anos uma série de decepções, frustrações e tristezas pelo desfecho muitas vezes inexplicável da premiação. Edições como a do ano passado, em que "Parasita" venceu e agradou a praticamente quase todo mundo, são muito mais a exceção do que a regra.

A vitória do novelão "O Discurso do Rei" sobre o visionário "A Rede Social" em 2011, o esquecível filme de domingo à tarde "Spotlight" derrotando o espetacular "Mad Max: Estrada da Fúria" em 2016, a patifaria que foi ver "Green Book" batendo "Infiltrado na Klan" em 2019… Estas são apenas algumas das muitas marmeladas recentes do Oscar, mas a grande verdade é que a história do Cinema está cheia delas. Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock, por exemplo, dois dos maiores cineastas da história, nunca venceram sequer um Oscar em suas longas e prolíficas carreiras. "Cidadão Kane", tido por muitos críticos e especialistas como o maior filme da história do Cinema americano, perdeu a edição de 1940 para algum filme que se hoje é lembrado, deve ser apenas pela anedota de ter batido a obra-prima de Orson Welles. Vencer o Oscar, em quase 100% das vezes, tem menos a ver com qualidade e muito mais com dinheiro, prestígio ou simplesmente uma boa campanha junto aos votantes da Academia.

Antes de explicar o que eu quero dizer, é preciso primeiro entender quem é a tal da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que anualmente distribui o carequinha dourado mais cobiçado de Hollywood. Fundada em 1927 por Louis B. Meyer, chefão da MGM, na cidade de Los Angeles, Califórnia, a Academia nasceu como um órgão patronal que tinha dois objetivos bem específicos: (i) impedir que os trabalhadores da indústria se sindicalizassem e implodissem um modelo de negócios bastante lucrativo para os estúdios; e (ii) corrigir a imagem de antro de depravação e maus comportamentos que Hollywood nutria perante os olhos da América dos anos 1920[1]. Assim, foi criada uma grande associação de classe, que reuniria todos os profissionais do cinema, resolvendo suas crises e disputas de forma interna, e pondo panos quentes em seus escândalos.

O negócio de distribuir prêmios veio a reboque disso, quando os fundadores da Academia perceberam que uma premiação iria depor a favor da imagem de "seriedade" que queriam passar para a instituição. Meyer pediu que Cedric Gibbons, diretor de arte da MGM desenhasse um esboço para o prêmio e ele voltou com o ilustre careca pelado, segurando uma espada. O nome Oscar? Ninguém sabe ao certo de onde surgiu e até hoje sua origem é motivo de lendas. Fato é que ali nasceu a Academia, o Oscar e o resto é História.

        *Sede da Academia em Los Angeles - Créditos da Foto: Los Angeles Times*

Se hoje a Academia ainda não é exatamente democrática, podemos ao menos dizer que houve avanços de lá para cá. A organização tem hoje mais de 8.000 votantes, divididos em 17 grupos: atores, diretores, diretores de elenco, diretores de fotografia, figurinistas, documentaristas, executivos, diretores de montagem, maquiadores e cabeleireiros, marketeiros, músicos, produtores, designers de cenário, animadores, diretores de curtas, profissionais de som, profissionais de efeitos visuais e por fim, roteiristas [2]. Nos últimos anos, após uma série de polêmicas envolvendo a falta de representatividade no Oscar, a Academia vem tentando diversificar sua demografia, e aumentar a presença de mulheres e minorias na sua composição.

Todo esse corpo gigantesco de membros está elegível para votar no Oscar, e é sobre eles que se centram as campanhas dos estúdios durante a temporada de premiações. E é aqui que começa a ficar claro que para um filme se destacar na temporada tem um preço, e ele não é barato. Todo ano, centenas de filmes se tornam elegíveis para a premiação, e a única forma de um membro da academia filtrar a tonelada de longas que lhe é disponibilizada, é escolhendo os filmes que vêm se destacando na temporada.

Como esse destaque se torna perceptível? Bem, com muito investimento na promoção dos filmes. Da mesma forma como as eleições são uma máquina que movimenta muita grana no mercado publicitário, a temporada de premiações movimenta milhões de dólares anualmente nos EUA. Os estúdios, em primeiro lugar, precisam enviar cópias dos filmes para todos os votantes (os chamados screeners), e estamos falando de mais de 8.000 pessoas espalhadas pelo mundo todo, já que há anos a Academia não tem apenas membros americanos. Além disso, são promovidas sessões especiais em Los Angeles e Nova York (onde vive a maior parte dos votantes), geralmente seguidas por jantares luxuosos, em que elenco e diretores confraternizam com os votantes. Quando um filme entra na campanha para valer, é comum que a vida dos envolvidos se modifique radicalmente em função da premiação: Bong Joon-Ho, por exemplo, o diretor sul-coreano de "Parasita", se mudou de Seul para Los Angeles no final de 2019, de modo a se dedicar em tempo integral para a campanha do filme. Além disso, os estúdios despejam dinheiro em anúncios numa porção de veículos jornalísticos de alta rodagem em Hollywood, como o jornal Los Angeles Times e as revistas Variety e The Hollywood Reporter[3].

 *Campanha do filme "Nasce uma Estrela" na capa da Variety - Créditos: Divulgação / Variety*

Ao final, essa brincadeira toda representa um gasto, para os estúdios, na casa dos 20 a 30 milhões de dólares[4]. No meio do caminho, outras premiações, que fazem parte da temporada, vão servindo como termômetros do quão efetiva está sendo a campanha de determinado filme. As mais importantes, e para as quais você deve prestar bastante atenção se quiser acertar os vencedores do Oscar, são os prêmios distribuídos pelas guilds (que funcionam como sindicatos internos das categorias): SAG (atores), DGA (diretores), PGA (produtores), WGA (roteiristas), ACE (montadores), ADG (designers de produção/diretores de arte), CDG (figurinistas), e diversas outras. A importância das premiações desses sindicatos, deriva do fato de que boa parte dos seus membros, também faz parte da academia. Tomemos o SAG por exemplo: a categoria dos atores é de longe a mais numerosa dentre os votantes da academia, e quase todos os atores de Hollywood estão vinculados ao SAG. Uma vitória na premiação anual desse sindicato, portanto, é um indício poderosíssimo de altas chances de sucesso no Oscar. Não por acaso, no ano passado, o filme "1917", de Sam Mendes, vinha fazendo a rapa na temporada de premiações e era franco favorito até uma surpreendente vitória de "Parasita" na categoria de melhor elenco do SAG, que sinalizou uma possível virada do longa de Bong Joon-Ho aos 45 do segundo tempo.

Toda a temporada e os milhões gastos em campanha culminam justamente no Oscar, a premiação mais nobre e cobiçada de Hollywood. A votação para o Prêmio da Academia tem algumas peculiaridades adicionais. Cada um dos 17 grupos da Academia, que eu mencionei lá em cima, vota primeiro na escolha dos indicados, exclusivamente na sua própria categoria nessa etapa, ou seja, atores indicam atores, diretores votam em diretores e assim por diante. Uma vez que a lista dos indicados é divulgada, para a premiação em si, todos os membros da Academia votam em todos os filmes.

Se na maior parte das categorias, a escolha do vencedor se dá por maioria simples, na categoria de melhor filme, em particular, o sistema adotado pela Academia é o do voto preferencial, de modo a evitar que um filme ganhe o Oscar com apenas 10% dos votos. Através dele, os votantes rearranjam os indicados numa lista, conforme sua ordem de preferência[5]. O modelo privilegia filmes que polarizam pouco e conseguem meio que agradar a geral sem ofender ninguém. Se um hipotético filme A consegue, por exemplo, 40% das primeiras colocações nas listas dos votantes da Academia, mas acaba sendo divisivo e ficando entre as últimas colocações do restante, um filme B que tenha conseguido apenas 20% das primeiras colocações e dominado a segunda posição da maioria, pode sair da noite vencedor. É por isso que marmeladas são tão comuns na categoria de Melhor Filme ao longo dos anos.

A soma de um modelo de votação complexo, com muito dinheiro envolvido, explica porque o Oscar é tão bizarro e simplesmente parece incapaz, na maior parte das vezes, de reconhecer os melhores filmes. "Mas por que vencer é tão importante?", vocês podem se perguntar. O que justificaria dezenas de milhões investidos em troca de uma ou algumas estatuetas? Bem, estamos falando de Hollywood né, uma indústria movida por dinheiro e prestígio. Vencer o Oscar não apenas pode impulsionar o desempenho de um filme nas bilheterias, mas também abrir portas para novos projetos de todos os envolvidos no grande negócio que é o Cinema.

A premiação de amanhã será bastante sui generis nesse sentido. Num ano em que cinemas passaram quase todo o tempo fechados, e que o faturamento dos Estúdios diminuiu brutalmente, tivemos uma temporada de premiações bastante diferente, com campanhas bastante modificadas. Para começo de conversa, trata-se de um dos anos mais diversos da história do Oscar, e em que provavelmente teremos uma mulher vencendo melhor direção e 4 atores de minorias levando as categorias de atuação. Uma das questões que irá pairar antes, durante e depois da premiação, é se num momento de rápida mudança do audiovisual, em que o Streaming cresce em importância e a relação do público com o Cinema muda cada vez mais rápido, ainda vale a pena investir tantos milhões numa premiação e na pompa que a envolve. Seja qual for a resposta, fato é que dificilmente o Oscar perderá seu charme e prestígio, e cinéfilos de todo mundo ainda continuarão acompanhando a premiação por muitos anos, nessa eterna relação de amor e ódio com as escolhas da Academia.

[1] https://www.vanityfair.com/hollywood/2014/02/secret-oscar-history