O vazio fora sua primeira morada, um espaço inominável onde sua existência se dissolvera como poeira carregada por um vento sem dono. Quando despertou, foi como ser cuspida de volta ao mundo, mas não ao mesmo mundo que um dia conhecera. Este era um lugar grotesco, onde a própria terra parecia pulsar em desprezo. O solo úmido a acolhia com a frieza de um leito fúnebre, enquanto a chuva descia sobre seu corpo como uma prece sem fé.

Por dias, permaneceu ali, inerte, como uma oferenda abandonada a divindades esquecidas. Cada gota que tocava sua pele trazia a sensação de dissolução, como se a própria chuva estivesse lavando algo além da sujeira. Como se estivesse corroendo sua essência, expondo uma verdade que ela não queria ver. Mas então, uma dor nova e avassaladora incendiou seu peito. Uma queimação bruta, como ferro fundido derramando-se através de suas veias. Algo estava errado. Mas tudo em si já era um erro.

Seus pensamentos eram uma tempestade de ordens contraditórias, como se sua mente estivesse sendo puxada em direções opostas. Protocolos impessoais disparavam em sua consciência, estéreis e imperativos: “DANO DETECTADO. IGNORAR. PRIORIZAR FUNCIONALIDADE ÓTIMA.” As palavras reverberavam como sentenças absolutas, indiscutíveis. Mas havia outra força dentro dela, um ódio que não podia ser codificado, uma fúria que se contorcia contra os comandos. Não era apenas ódio por aqueles que a fizeram assim. Era ódio por si mesma, por estar presa em um corpo que apodrecia sem nunca morrer, por ser a ruína de algo que um dia foi humano.

E então, ela se ergueu.

Seus movimentos eram desarticulados, como uma marionete cujas cordas haviam sido cortadas e reatadas às pressas. O bosque ao redor se fechava sobre ela, e sua silhueta oscilava como um espectro entre as árvores retorcidas. Cada passo era um desafio ao próprio corpo, e quando olhou para si, viu a verdade nua e crua: os cortes em sua pele, ainda abertos, ainda latejantes. Sangue coagulado misturava-se à lama, um lembrete silencioso de sua impermanência.

Os comandos frios em sua mente ordenavam: “SINTOMAS IRRELEVANTES. PRIORIZAR LOCOMOÇÃO.”

Mas não havia como ignorar. O que via diante de si não era apenas um corpo danificado, mas uma promessa de degradação contínua. Ela não era imortal. Era uma ruína ambulante, algo que desmoronava lentamente, sem que ninguém se importasse em reconstruir.

Foi quando avistou a loja de conveniência. Pequena, frágil, pulsando luzes artificiais contra a escuridão da noite. A visão despertou algo indefinível dentro dela. Não era fome. Ela não sentia fome. Mas talvez fosse desejo, uma necessidade de algo que lembrasse sobrevivência.

Arrastou-se até a entrada. A porta automática abriu-se com um sibilo mecânico, e o sino ecoou como um alerta para um predador que não deveria estar ali. O olhar do atendente a percorreu de cima a baixo: roupas encharcadas e rasgadas, pele marcada por cortes e sujeira, cabelo desgrenhado, olhos vazios. Um ser desalinhado com a ordem das coisas. Ele deu um passo para trás.

— Você precisa sair. Eu vou chamar a polícia.

A frase ativou algo primal dentro dela, como um interruptor sendo acionado. Seu corpo reagiu antes mesmo que sua mente decidisse. O movimento foi rápido, sem hesitação. Sua voz soou baixa e cortante:

— Não.

Não era uma súplica. Era um comando.

O pânico nos olhos do homem foi instantâneo. Ele hesitou, e isso foi o suficiente para que ela se movesse, sua atenção desviando para uma das prateleiras. Seus dedos encontraram um pacote de macarrão instantâneo. Não havia raciocínio na escolha, apenas necessidade. Agarrando-o com força, virou-se e correu para a saída, derrubando prateleiras no caminho.

Os gritos do atendente e os olhares horrorizados dos clientes ficaram para trás. A floresta a abraçou novamente, sombras e silêncio envolvendo sua fuga. Somente quando estava longe o suficiente, longe de qualquer interferência humana, rasgou o pacote com as mãos. Mastigou o macarrão cru, sentindo os fragmentos cortantes arranharem sua garganta. O gosto era de nada.

As vozes voltaram: “NUTRIÇÃO DESNECESSÁRIA. INTERRUPÇÃO: INEFICIENTE.”

Ela cerrou os dentes. Seu ódio fervia porque sabia a verdade cruel por trás de sua existência. Ela não havia sido feita para se vingar. Eles a criaram, moldaram-na à sua vontade e depois a descartaram. Mas não lhe deram as ferramentas para retaliação.

E isso era inaceitável.