Resumo

Analisando os métodos oriundos da física, teorias de campo efetivo e equações do grupo renormalização, esse texto procura examinar a relação entre a escala do objeto a ser descrito e sua descrição. Ao construirmos modelos sobre o funcionamento do mundo, precisamos sempre escolher uma escala para fazê-lo. Embora este problema seja entendido como um problema de matemática aplicada, se trata de uma questão generalizada da construção de teorias. Essa seleção é uma característica crucial da modelagem de fenômenos que exibem diferentes níveis de organização ao longo de diferentes escalas espaciais e temporais. A escala na qual um fenômeno é modelado afeta severamente nossa capacidade de descrever seu funcionamento. Estratégias de modelagem matemática, muitas vezes abstraem parte da complexidade do fenômeno que modelam assim a metodologia que escolhemos para descrever tal fenômeno, fazem grande parte do trabalho de tornar esse modelo tratável, por exemplo: soluções analíticas para equações diferenciais são muitas vezes intratáveis computacionalmente, dessa forma desenvolvemos diversas técnicas para evitar esse problema. Se os métodos formais que usamos codificam grande parte da informação multi-escalar de um objeto, devemos nos debruçar sobre como eles são capazes de fazê-lo, para reaproveitarmos essas estratégias em outros problemas.

Introdução

O suposto conflito entre filosofia e ciência reside numa pressuposição firmemente arraigada no pensamento filosófico, a dependência direta entre ciência e reducionismo. O eliminativismo aparece como um exemplo claro, porque este supõe que as práticas de seres sapientes podem ser totalmente descritas pelo funcionamento de neurônios de forma a eliminar outras formas de descrição. Proponentes de posições como esta e similares, por vezes implicitamente, assumem que o conhecimento científico oriundo da prática empírica prescinde da articulação filosófica. Uma posição contrária, que ainda mantém a importância da ciência, seria um questionamento à chamada unidade da ciência, que defende a perspectiva que diferentes domínios científicos não necessariamente exibem continuidade entre si, delimitando um escopo de atuação para a filosofia.

Cada uma à sua maneira, estas posições se mostram insuficientes para descrever o escopo e profundidade da relação entre ciência e filosofia. É importante, no entanto, fazer uma distinção entre a prática da ciência e a

imagem que se faz do trabalho científico pela filosofia; a primeira é firmemente estruturada ao redor de práticas explicativas e tecnologias descritivas das mais variadas — cada qual apropriada para sua respectiva disciplina e pra sua escala de explicação, a segunda são perspectivas metafísicas sobre ciência que não necessariamente advém do trabalho científico, por vezes herdadas de séculos de pensamento filosófico, onde os objetos e métodos das ciências eram menos precisamente descritos, desenvolvidos e analisados como ferramentas epistemológicas.

O século 20, em particular, foi frutífero não só na expansão da capacidade da filosofia de pensar sobre ciência, mas também em confirmar sua importância para o pensamento científico como prática. Este texto investiga este suposto conflito não no sentido de resolvê-lo a favor de um ou de outro, mas de mostrar a pertinência de uma prática filosófica totalmente sincronizada com nossa melhor e mais atual ciência, exemplificando a dependência mútua destes campos.

É importante salientar, no entanto, que esses dois polos não são exclusividade dos praticantes de uma ou de outra disciplina. Os pressupostos metafísicos que informam nosso senso comum sobre o mundo se alastram independentemente do campo de atuação, assim como os arroubos reducionistas. Mesmo entre praticantes de ciências especializadas diversas posições podem ser encontradas misturando reducionismo, anti-reducionismo e instrumentalismo, sem o entendimento apropriado da compatibilidade entre as posições e a prática (ou a falta desta). Por vezes, assumir esta ou aquela posição depende justamente da escala em que tal cientista opera. Essa observação, de certa forma, demonstra o argumento a ser feito: diferentes objetivos de pesquisa se referem a escalas distintas espaciais e temporais, e apenas endereçando a escala apropriada suas descrições adquirem tração explicativa.

As disputas entre realismo e anti-realismo se misturam àquelas entre reducionismo e anti-reducionismo e aos debates sobre a possibilidade ou não de uma unidade da ciência. Nessas discussões o que está em jogo não parece ser uma investigação capaz de levar em conta como se faz ciência e os limites impostos a ela por ser obra de seres ecologicamente situados e portanto privados de informação, mas uma extensão de certos debates herdados da história da filosofia.

O presente texto tenta estabelecer parâmetros mais claros para avaliar estas questões, através de uma síntese de vários dos insights importantes de cada uma dessas posições e compatíveis com o que podemos pensar a partir da ciência estabelecida, a fim de dar conta da questão de como filosofia e ciência se relacionam, de forma que cada uma ofereça o que tem de melhor para a outra.

É provável que a inteligência humana, e as linguagens públicas coletivas que constituem a base do que há de mais especial biologicamente nessa inteligência, tenham evoluído de forma a permitir complexos jogos de coordenação social. Provavelmente, também somos observadores relativamente confiáveis dos padrões de comportamento dos animais, sendo capazes de fazer inferências de navegação em certos tipos de ambientes e de antecipar aspectos das trajetórias de objetos de médio porte que se movimentam a velocidades médias. Entretanto, a proficiência em inferir a estrutura em grande e pequena escala de nosso ambiente imediato, ou quaisquer características de partes do universo distantes do habitat de nossos ancestrais, parece ser ordens de magnitude além do escopo das demandas evolutivas que deram forma ao aparato cognitivo desses seres.

Independente de como entendemos o debate sobre a natureza do método científico, temos alguma certeza que a maneira mais confiável de prever o comportamento futuro de entidades que podemos observar é a ciência. As ciências naturais aparentemente nos informam sobre a natureza do

mundo em que vivemos e são comumente entendidas como tendo substituído a metafísica como o estudo da estrutura da realidade.

Sellars (1962) nos oferece uma maneira de entender a questão das escalas de descrição, ainda que não seja comumente associado com essa questão. Sua metáfora de uma 'visão estereoscópica', para o objetivo da filosofia de construir uma ponte epistemológica entre dois sistemas conceituais distintos — a imagem manifesta e a imagem científica — pode ser entendida como precursora do argumento em prol da necessidade de descrições relativas à escala.

Toda alegação a favor da primazia da ciência é uma alegação inerentemente normativa. A rejeição do imediatismo por Sellars, nos diz que toda alegação é em princípio contestável, e a primazia da ciência não está eximida disso. Para sermos capazes de argumentar a favor da hipótese de que a ciência deveria ser “a medida de todas as coisas, do que é, de que é, e do que não é, de que não é” adotamos uma posição assumidamente normativa ao invés de descritiva. Sellars (1956), nos diz que “ao caracterizar um episódio ou um estado como de saber, não estamos dando uma descrição empírica do episódio ou estado; estamos colocando este episódio no espaço lógico das razões de ser capaz de justificar o que se é capaz de dizer”.

Portanto, devemos assumir uma posição radicalmente naturalista e radicalmente normativista — seguindo Sellars; a ciência moderna tem nos mostrado consistentemente que é capaz de extrapolar nossa perspectiva comprimida através de escalas e magnitudes desconhecidas, distâncias espaciais e temporais de maneiras profundamente contra-intuitivas. Sellars, no entanto, mantém que a ciência é uma empreitada normativa. Portanto, para sermos capazes de estimar plenamente o poder da ciência, de expandir e revisar a estrutura da realidade, precisamos aceitar sua dimensão normativa, assim como indexá-la plenamente ao mundo natural.

Através do desenvolvimento do espaço lógico das razões, agentes humanas constroem formas metodológicas empiricamente reguladas de investigação, que expandem suas já impressionantes capacidades conceituais. Essa perspectiva adota uma postura comedida em relação a essas práticas como uma paulatina e assintótica perseguição de uma verdade aproximada. A perspectiva Sellarsiana do espaço lógico das razões parece ser plenamente compatível com realismo estrutural. Para endereçar as questões a serem tratadas de agora em diante, é preciso que sejamos capazes de estabelecer um realismo científico apropriado.

O Realismo estrutural nos diz que deveríamos ser comprometidos ontologicamente com a estrutura das teorias científicas bem sucedidas. Esta posição junta o argumento contra a existência de milagres ao problema da meta-indução pessimista. O argumento contra a existência de milagres é tipicamente oferecido pelo realismo científico, a favor de um realismo relativo aos objetos teóricos das teorias científicas bem sucedidas. O argumento da meta-indução pessimista, oferecido pelo anti-realismo, nos diz que como as teorias do passado foram reveladas como falsas, não deveríamos nos comprometer ontologicamente com os objetos teóricos que elas descrevem, já que as teorias mudam com o tempo. Ao incorporar esses dois insights, o Realismo estrutural se apoia na presunção da continuidade estrutural — dos conceitos teóricos e de suas

contrapartidas observáveis (diretamente ou apenas através de aparatos tecnológicos) — da progressão de uma e de todas teorias científicas, focando tanto na estrutura que permanece quanto no sucesso explicativo atual dessas teorias. Através do comprometimento com a estrutura, nos comprometemos com a ciência como determinando o escopo das investigações metafísicas possíveis, mas entendendo que a natureza da ciência e da própria prática científica justifica uma possibilidade de revisão, dentro dos parâmetros que ela estabelece.