Os filtros utilizam algumas tecnologias, mas na maioria dos casos duas se sobressaem: detecção facial e realidade aumentada. A câmera do celular reconhece e faz um tracking do rosto de uma pessoa e em seguida sobrepõe uma camada que cobre, altera detalhes ou acrescenta elementos à cena. Mas nem tudo é tão simples assim.

Muitas tecnologias fazem parte do nossa vida. Das mais simples às mais complexas, todas cumprem papéis que normalmente nos permitem realizar várias tarefas ao mesmo tempo ou simplificam outras que nos cobrariam atenção dobrada. A este fenômeno, Mark Weiser (cientista da computação e CTO da Xerox PARC.), deu o nome de computação ubíqua ou pervasiva.

"As tecnologias mais profundas são aquelas que desaparecem. Elas se entrelaçam com o cotidiano até que se tornem indistinguíveis dele” - The computer for the 21st Century. Mark Weiser.

E assim como os comandos de voz da Alexa já soam naturais para nós, os filtros presentes nas redes sociais podem, também, ser considerados um tipo de tecnologia ubíqua. Pois, já fazem parte do uso comum da tecnologia para a maioria da população mundial que tem acesso às redes sociais. Mesmo sem que haja um entendimento de como o uso dos filtros é possível.

Para entender isso melhor, vamos voltar algumas páginas até 1839, quando a primeira câmera fotográfica foi criada pelo francês Louis Daguerre. Importa contextualizar este momento. Daguerre foi um pintor, cenógrafo, físico e inventor francês. Isso significa que as primeiras pessoas a serem fotografadas eram europeus brancos e essa era a demanda que de fato só popularizou-se em 1888 com o surgimento da Kodak.

De lá pra cá a tecnologia das câmeras analógicas perdeu espaço para as câmeras digitais dos dispositivos móveis em que as imagens produzidas já não dependem de revelação e que podem ser incrementadas por inteligências artificiais capazes de adaptar fotografias com baixa iluminação ou até mesmo “melhorar” a aparência das pessoas fotografadas.

E é aqui que podemos retomar aos filtros. A maioria das câmeras dos celulares mais atuais, são capazes de identificar os rostos e sorrisos em um enquadramento e através dos filtros modificar a imagem digital produzida como resultado final. Para isso, usam algumas tecnologias um pouco complexas. Detecção facial e realidade aumentada são as mais recorrentes.

A maioria dos sistemas de reconhecimento facial usa a tecnologia da câmera 2D que cria uma imagem plana de um rosto e mapeia “pontos nodais”(tamanho/ formato dos olhos, nariz, maçãs do rosto etc.). O sistema calcula a posição relativa dos pontos e converte os dados em um código numérico que podem ser usados como referência para alterações e comparações em tempo real, como por exemplo distinguir um rosto de outros elementos.

Uma vez que o rosto é identificado é possível aplicar uma nova camada à realidade que resulta na maioria dos filtros que conhecemos, que simulam maquiagem, iluminação, distorções, ruídos e que suavizam ou modificam expressões e características faciais.

O uso dos filtros por si só não revelam os problemas que já existiam na tecnologia usada por Daguerre. Mas reverberam mesmos problemas e questões que afetam em sua maioria a população afro-descendente.

Para o fotógrafo Leandro Cunha, especialista em fotografar pessoas de pele negra, acredita que parte da questão da dificuldade de fotografar pele negra escura tem haver com como a tecnologia fotográfica foi desenvolvida. E isto se conecta diretamente a maneira com que os filtros são desenvolvidos e utilizados.