16.08.2025, 04:36pm.

A sala de estar era o cômodo mais quieto da casa. O silêncio ali tinha peso, como se as paredes guardassem respirações suspensas. Ayumi estava afundada numa das poltronas de couro já gasto, um livro aberto sobre o colo. Os dedos repousavam sobre as páginas, mas não viravam mais nada. Como se a leitura tivesse se interrompido não minutos antes, e sim em outro tempo, distante.

Do outro lado da sala, Judith ergueu os olhos do tricô e percebeu algo fora de lugar. Ayumi não se movia havia longos instantes. Nem sequer piscava. Aproximou-se devagar, chamando-a com delicadeza. O silêncio permaneceu, absoluto.

Quando chegou mais perto, estremeceu. Os olhos da menina estavam abertos, mas vagos, como se atravessassem a sala e mirassem um ponto invisível. O peito subia tão pouco que a respiração parecia se esconder do mundo.

Judith ajoelhou-se ao lado dela, pousou a mão sobre a borda do livro e fechou-o com lentidão, sem ruído.

— Está me ouvindo? — perguntou num tom baixo, quase materno.

Nada.

Então, uma piscada lenta, única, como se exigisse esforço desmedido, e um fio de voz escapou dos lábios:

— Estou… sumindo…

Judith sentiu a pele dela mais fria, o pulso lento, e um olhar que parecia ser sugado para além das estantes, para um lugar onde nenhuma lógica podia alcançá-la. Sem alterar o tom, segurou a mão da menina e começou a tocar, com paciência, cada ponta de dedo, um a um, como se tentasse reacender um circuito adormecido. O tempo correu em silêncio até que, de repente, Ayumi inspirou mais fundo, o ar finalmente preenchendo o peito. Um instante depois, com a voz frágil e perplexa, perguntou:

— O que… eu estava… lendo?

Judith ergueu o livro, mostrando-lhe a capa. Sorriu apenas de leve, sem ironia, sem susto. Ayumi fitou o objeto como se fosse estranho a ela. Um intruso recém-colocado em suas mãos.

Era um livro que, minutos antes, parecia parte de sua vida. Agora, não mais.