"Counselor, give me some advice Tell me how hard will I fall if I live a double life."
20.06.2025 :
A luz da manhã filtrava-se pelas frestas da persiana em feixes oblíquos, atravessando a renda espessa da cortina que descia até o chão. O ar da sala era ameno, impregnado por um leve odor de verniz antigo e de velas já apagadas. Um tapete com estampas florais repousava sob o corpo, enquanto o assoalho de madeira rangia sutilmente sob os passos. As paredes eram revestidas com papel de tom bege, ligeiramente esmaecido nas extremidades, e os cantos do teto ostentavam um friso ornamental que parecia ter sido pintado há décadas. Sobre a lareira apagada, cercada por molduras trabalhadas e metais envelhecidos, repousava um relógio grande e pesado, parado às seis e quarenta e três. Um segundo relógio, de pêndulo, dominava o canto do cômodo, alto e silencioso, guardando o tempo como se dele já não fizesse parte.
Ayumi permanecia sentada no chão, próxima à mesinha de centro, com um cobertor fino envolvendo os ombros, mais pelo conforto da textura que por qualquer noção de frio. Em seu colo, acolhia o pequeno gato que haviam resgatado há pouco mais de uma semana. Ele dormia encolhido, o peito subindo e descendo em um ritmo sereno. Um raio de sol cruzava sua cabeça, iluminando o pelo em manchas de creme, branco e preto.
Segurava uma folha de papel e alguns canetões, onde se lia, no topo: “ENCONTRAMOS UM GATINHO”, em letras perfeitamente alinhadas; uma caligrafia cursiva que se esforçava para não se tornar serifada. Ao lado, havia outra folha amassada, com palavras riscadas e rascunhos incompletos.
Mais atrás, Judith empilhava revistas antigas sobre um banco de madeira escura. Vestia uma blusa de lã e meias grossas. O silêncio da casa era quase reconfortante, como se tivesse sido cuidadosamente moldado ao longo dos anos.
De repente, Ayumi soltou um riso baixo, quase distraído.
— O que foi? — perguntou Judith, sem se virar por completo.
A resposta tardou. O sorriso ainda pairava nos lábios da garota, e ela olhava para o papel como se enxergasse algo além do que estava escrito.
— Eu estava me lembrando da praia. Daquele dia em que você me levou. Eu corri pela areia até tropeçar, e rimos daquilo por um bom tempo. Você me deu uma concha. Tinha um brilho diferente por dentro… como madrepérola.