"Chasing lights of the dying limbs Change won't come if we don't begin Don't we all fall?"
A lâmpada fria pendia do teto como um olho pálido, vigiando a cozinha com sua luz indiferente. Seu fulgor era constante, sem oscilação ou calor, lançando uma claridade leitosa que alisava as bordas das coisas. Ayumi estava sentada à mesa, o cabelo escuro preso com negligência e caído sobre os ombros. As pernas juntas e as mãos repousando sobre a fórmica. À sua frente, um prato vazio e um copo d'água perfeitamente cheio. A superfície líquida imóvel, como um espelho. Em determinado ponto, residia-se confortável no pensamento de Judith fazê-la se tornar como parte da casa nos momentos inclusos das refeições.
O relógio na parede marcava 11h12. O som de seu tique-taque preenchia a cozinha com um ritmo anêmico, arrastado demais, como se cada segundo fosse um esforço do mecanismo. Perguntou-se se os demais escutavam, ou se os cliques atravessavam somente os próprios ouvidos. Por vezes, conseguia escutar a eletricidade percorrer por detrás das paredes.
Judith, de pé junto à bancada, cortava vegetais com uma precisão silenciosa. Os movimentos eram econômicos, firmes. Ela gostava do ritual das tarefas simples, da sensação de ordem que os gestos cotidianos ofereciam. Ayumi observava, mas não com atenção real. Seu olhar estava ali, mas não havia foco, apenas presença. E então, uma pergunta.
— Pode me passar o sal?
A frase flutuou no ar com uma leveza inesperada. Era um pedido simples, inofensivo. Em qualquer outra casa, seria uma banalidade.
Ayumi reagiu, embora com atraso. O braço direito começou a se mover com lentidão. Os dedos se curvaram em direção ao saleiro, mas a ação foi interrompida antes de se completar. O braço congelou no ar, num ângulo incômodo, e os dedos ficaram suspensos. O olhar da garota desviou-se da mesa, atravessando a linha do horizonte doméstico e fixando-se em algum ponto indefinido no espaço, como se uma presença invisível houvesse irrompido.
A boca se entreabriu. A voz saiu entrecortada, arrastada por fios que se rompem antes de alcançar o destino:
— O sal. Está...
E então, silêncio. Um silêncio denso, artificial e contínuo como se a própria linguagem tivesse sido desligada. Judith se virou lentamente, os olhos estreitando-se enquanto observava a rigidez no corpo da menina. Ela deixou a faca sobre a tábua e cruzou o chão com passos quase inaudíveis, como se receasse quebrar algo frágil no ar.