04.05.2025 :
Existe uma imprudência contida em cada um de nós.
Imprudência, por definição, refere-se a ausência de cálculo. A quebra do compasso entre impulso e consequência. Mais do que um erro, ela carrega uma forma bruta de coragem: como caminhar descalço sobre cacos, sem saber se está fugindo ou apenas tentando sentir algo. É o fósforo aceso perto do vazamento, o mergulho antes de medir a profundidade. Em essência, não se trata de loucura, mas sim uma súplica silenciosa por limite. Uma forma inconsciente de se perguntar até onde ainda se pode ir antes de romper.
Em seu segundo dia de estadia, ela encontra uma fatia generosa de bolo de aniversário na geladeira. Sem solicitar, e depois envergonhada pelo gesto, o devora com a urgência de quem nunca teve uma refeição de verdade. Com pressa, quase alívio. Trinta minutos depois, o corpo rejeita, e ela vomita sangue. Consequência, clara e objetiva: as lágrimas escorrem livremente até encontrarem o chão frio de azulejos do banheiro, e ela não compreende o porquê. Deita-se ali, até que o enjoo silencie. A placa metálica embutida sob a pele não reconhece o conceito de "memória gustativa".
Ela se expõe ao frio, na esperança de que o abraço gélido lhe devolva alguma sensação, mas o corpo não responde à dor térmica. Só para quando as articulações se travam. A imprudência de resistir aos comandos mentais a faz passar noites em claro, ou então ser forçada a dormir por horas a fio, como uma marionete obedecendo impulsos alheios. Em certa noite, encostou o pulso na lareira acesa só para tentar reaprender o conceito de “quente”.
Ela repete gestos, especialmente os que observou .- .- .-. --- -. executar ao desativar sistemas. Pressiona a própria nuca, esfrega as têmporas, arranha a pele como se, com isso, pudesse se desligar. Digita comandos em teclados quebrados, aguardando que algum código milagroso a liberte. Em espelhos embaçados, escreve nomes com o indicador, talvez restos de memórias. Murmura trechos de músicas com a voz trêmula. Consequência: ao perceber que não se lembra da letra por completo, entra em pânico. Jogou cartas e dados contra si mesma e venceu, em todas as vezes. Traduziu linguagens extintas e, cedendo ao cansaço, acessou um servidor agora vazio. Nenhum outro usuário online. Jogadores equivalentes a zero.
Certa vez, irritou-se com o próprio reflexo, ressentida com o que deixou de ser e o que jamais será. Não é possível consertar o próprio rosto, mas é fácil crer que um espelho quebrado é quem está fora de sintonia. Emoções reais percorrem suas terminações nervosas, e ela precisa de mais tempo do que o esperado para processá-las. Sua vida foi apagada e reescrita por mãos indevidas, mas ainda guarda os fragmentos. Consequência: permanece diante de luzes intermitentes. Raspa moedas de forma compulsiva, como se estivesse apostando. Monta quebra-cabeças em tempo recorde, como se a imagem estivesse clara antes mesmo da primeira peça. Organiza objetos como se seguisse uma linha de montagem invisível. Desconfia de espelhos falsos.
O caos não grita. Ele se infiltra. Esconde-se nos gestos pequenos. A imprudência nasce aí, onde o instinto sobrepõe a razão e cada movimento é uma súplica silenciosa por sensação. Não há plano, apenas a urgência de sentir. Mesmo que doa, mesmo que destrua. Ainda assim, no meio do descompasso, algo pulsa. Frágil, mas constante. Como um fio tensionado até o limite e ainda assim, intacto. Talvez a esperança não resida na certeza de melhora, mas na teimosia de seguir em frente sem nenhum motivo visível.
É a mão que treme, mas ainda escreve. A perna que hesita, mas continua. Se a imprudência é a dança desenfreada da dor, a esperança é a respiração entre os passos. É o que resta quando tudo falha e, mesmo assim, alguém insiste. Não por bravura, mas porque, apesar de tudo, ainda há uma parte que quer voltar a sentir.
Consequência: Ainda havia um pulso. E, por ora, isso bastava.