As pálpebras se fecharam, revelando o descontentamento diante do ruído incessante. O som das esferas rolando sobre as roletas, junto com músicas e vozes entusiasmadas e coléricas, compunha uma cacofonia inconfundível e desarmônica. Feixes de luz chamavam sua atenção, incidindo sobre suas íris e, quando o mundo voltou a fazer — mais ou menos — sentido, ele executou o próximo movimento.

— Vamos demorar três anos para montar isso se você não me ajudar.

O semblante suavizou e um curvar sutil dos lábios se fez presente. Os dedos de Tate fizeram rodopiar a pequena peça do quebra-cabeça, observando-a cair na palma, e o encaixe foi realizado sem dificuldades. Havia ainda a sorte de terem encontrado um canto afastado do cassino, um local que, provavelmente, não via uma vassoura há tempos e que possuía uma iluminação tão precária que mal permitia distinguir a figura contida nos fragmentos. Ele a fitou.

— Eu estou ajudando. Chata. — Um suspiro escapou de seus lábios. Apesar disso, divertia-se; a tarefa o fazia sentir-se importante, parte de algo maior do que meros códigos e circuitos – mesmo estando, literalmente, cercado por eles. Voltou o olhar para a parte traseira de uma máquina de fliperama inativa, repousando ao lado do corpo por um instante insignificante.

— Por que você compra tantas dessas coisas? Você nem montou metade delas.

— É o único jeito de te tirar do computador pelo menos duas vezes por semana.

— Já parou para pensar que depois teremos que desmontar tudo? Talvez nem consigamos terminar hoje.

Ela arqueou a sobrancelha, irredutível.

— Já.

— E você já pensou que estamos perdendo tempo?

— Nem tudo que é passageiro representa perda de tempo. Você anda abandonando vários projetos.

— Nada é eterno. Isso comprova meu ponto. E o que dura apenas alguns segundos?

— Horas, Tate. Estamos montando isso há horas.

— E desmontá-lo levará apenas segundos. — Ele a observava com um tédio diferente, não tanto uma sensação profunda, mas uma maneira natural e ousada de provocá-la – um impulso quase irresistível quando se está diante de uma figura familiar mais jovem.

— Sabe o que isso quer dizer? Que é muito mais fácil destruir do que criar.

— Eu não pedi uma filosofia. — Torceu o nariz. — E não se você não for incompetente.

— "Não se você não for incompetente." — Ela repetiu com uma voz mais suave, numa clara provocação.

Ambos pararam, encarando as peças escuras espalhadas pelo chão. ERROR suspirou.

— Vai demorar muito para acabar? Tenho mais o que fazer.

Ele, de fato, tinha outros afazeres. Ou talvez não tivesse; talvez estivesse disposto a sacrificar ainda mais sua produtividade por aquela companhia. Ela elevou o olhar.