Nos últimos anos, houveram tentativas cada vez mais robustas de construir modelos neurocientíficos que se ajustam tanto a dados experimentais como aos conhecimentos anatômicos obtidos através da ressonância magnética funcional. No entanto, estes modelos são largamente construídos ao redor da visão de que a consciência e a inteligência são um produto unicamente constituído/único da atividade neuronal. Essa conclusão é problemática na medida em que subscreve a uma concepção internalista de inteligência e uso da linguagem, que coloca uma forte ênfase nas capacidades computacionais dos agentes individuais, sendo que já foi visto que na prática as capacidades computacionais dos indivíduos não são, na maioria das vezes, confiáveis (Kahneman 2011, Simon 1955). A descrição mínima de inteligência/consciência considerada por este projeto como particularmente importante para o desenvolvimento de uma perspectiva naturalizada da cognição é fornecida por Robert Brandom: animais são sencientes, dotados da capacidade de ou sapientes, o que na prática significa que a inteligência é baseada na capacidade de um grupo de empregar conceitos. Brandom leva essa ideia a diante ao construir uma teoria de como o significado se constitui de forma inerentemente social e distribuída.

Se você acredita em algo ou quer dizer algo, você também tem o dever de acreditar ou endossar o que quer que venha desta coisa. Inferencialismo, como uma abordagem à teoria do significado sugere que os falantes inferem o significado de uma expressão em relação a outras expressões (especialmente as relações inferenciais) e reúnem o holismo semântico e holismo epistêmico.

Holismo semântico é a ideia que o significado de qualquer afirmação individual é definida por sua relação com outras afirmações; não só as afirmações que essa afirmação implica, mas aquelas que, por sua vez, também implicam essa afirmação. Mas isso quer dizer que comprometer-se com o significado de qualquer afirmação é também se comprometer com o significado de todas as outras afirmações que estão conectadas inferiencialmente. Isso tem uma consequência espistêmica: qualquer crença é definida por suas relações inferenciais a outras crenças pressupostas ou implicadas por elas. Então se você acredita numa coisa, você também deveria acreditar em tudo que se segue a partir desta coisa — independente se você está ou não ciente dela (claramente na maioria das vezes não estamos).

Esta concepção de compromisso discursivo é o tema principal do Inferencialismo: o significado de nossas declarações vai persistentemente além de nossa consciência em um momento dado. Ser racional, portanto, é rastrear estas implicações e tomar consciência daquilo em que estamos nos comprometendo quando nos comprometemos com um crença ou uma declaração. Em outras palavras, o que queremos dizer quando falamos ou pensamos é determinado por tudo aquilo que também temos o dever de dizer ou pensar a partir delas.

Esta é uma definição incrivelmente robusta, porque implica que a noção de cultura ou a externalização de recursos computacionais (que mais tarde são incorporados na estrutura da sociedade via normatividade) fazem a maior parte do trabalho cognitivo. Os conflitos entre estas duas perspectivas precisam ser explicitamente resolvidos para que possamos ter uma teoria empiricamente convincente de como a atividade cerebral dá origem à consciência/conhecimento e como a linguagem se enquadra nessa imagem. As posições que postulam a linguagem como dependente da relação com o mundo externo são chamadas de externalismo semântico.

Portanto, até certo ponto é justo/coerente dizer que a linguagem codifica certas características do mundo, o que de outra forma não seria de grande utilidade. Entender o quanto ela permite um mapeamento particular entre mundo e mente parece ser da maior importância para lidar com a questão de como externalismo semântico pode se ser integradas em modelos cognitivistas (aqueles que assumem que todas as faculdades exibidas por animais inteligentes são uma função direta da atividade neural).

Tanto a imagem clássica de conceitos quanto a imagem externalista que a suplantou vêem as relações palavra-mundo em termos de um simples alinhamento entre palavras e características: no relato clássico, o conceito expresso de um predicado está diretamente alinhado com um universal compartilhado por todos; no relato externalista, o predicado está diretamente alinhado com um tipo natural por meio de uma complicada rede causal ⁄socio-histórica. Entretanto, não parece prático acreditar/afirmar que o holismo semântico irrestrito seja computacionalmente tratável, porque não pode haver nada cujo significado seja globalmente dependente de todo o resto, mas apenas regiões mais locais e revisáveis de significado.

Um modelo interessante dessa perspectiva é fornecido pela física, especialmente pela mecânica clássica. Mark Wilson fornece estudos de caso detalhados mostrando que a mecânica clássica é uma colcha de retalhos de fachadas teóricas — são padrões de referência que individualmente parecem mini teorias, mas que formalmente são inconsistentes entre si e ligados por instruções que dizem como mover de retalho em retalho e filtrar informações que se movem por eles, evitando assim as próprias inconsistências. Através de engenharia lingüística inteligente (redução de variáveis, deslocamento dimensional e de escala, condições de limite cuidadosamente formuladas, abordagem assimptótica), os praticantes da mecânica contínua exploram as informações da mecânica macroscópica para modelar sistemas para que os edifícios não caiam. A denominação física apropriada para este processo descrito acima é desacoplamento.

Às vezes descobrimos que a física em escala S₁ desacopla da física em S₂. Quando a física em duas escalas se desacopla, queremos dizer que ela é autônoma. Estas escalas dependem minimamente uma da outra. Se a física mudar em S₂, é provável que a física em S₁ permaneça inalterada. Não precisamos, portanto, saber tudo para fazer física. Podemos estudar física em S₁ enquanto ignoramos a física em S₂. Na mecânica dos fluidos, ignoramos a estrutura subatômica. As interações das partículas são deixadas de fora, enquanto estudamos os fluidos como um continuum. Na física nuclear, prótons são feitas de quarks e gluons. Mas é difícil usar quarks e gluons para estudar os prótons. Como a física ao nível dos prótons (às vezes) se desacopla da física ao nível dos quarks, ignoramos as interações dos últimos. Ao acompanhar a trajetória de uma bola de futebol, ignoramos muitas coisas: estrutura interna, contribuições gravitacionais quânticas e assim por diante. Não importa o que está acontecendo na escala da gravidade quântica, a bola de futebol provavelmente não se importa muito com isso. Essas escalas são, em sua maioria, autônomas. Porque algumas escalas se desacoplam, somos capazes de definir uma teoria de campo efetiva. Uma teoria é efetiva quando é definida apenas em algumas escalas S₁ mas colapsa (dá maus resultados) em outras escalas S₂.

O desacoplamento oferece uma compreensão do porquê modelos neurocientíficos do cérebro não são suficientes para descrever o uso da linguagem por usuários de conceitos e do porquê tanto a imagem clássica como a imagem holística dos conceitos se decompõem. Uma teoria adequada do uso da linguagem deve estar em sintonia com a escala em que ela é empregada, em vez de procurar reduzi-la à teoria que a descreve em um nível diferente de complexidade.

Uma perspectiva evolucionária da inteligência explica a terceirização do desenvolvimento cognitivo ao ambiente minimizando a necessidade de um intenso processamento cognitivo individual. Quanto mais ampliação cognitiva estruturas externas proporcionam em termos de capacidade de resolução de problemas, menos o órgão tem que trabalhar para que o problema seja resolvido; a cultura codifica soluções específicas que nos permitem construir a partir delas, em vez de constantemente, literalmente reinventar a roda.

Capacidades de emprego e compreensão de conceitos complexos são uma função de um certo tipo de relativismo sistemático onde o limite entre um sistema e seus agentes individuais pode ser delimitada; quanto mais refinada for uma perspectiva ecológica, menos seus indivíduos precisam fazer isso. Relativismo sistemático sugere que um mecanismo tenha uma função devido a como este se situa em relação a todos os mecanismos que com ele interagem; uma descrição do sistema é definida pelos limites em que se escolhe modelá-lo em relação ao ambiente, definindo assim o limiar entre ele e o mundo.

O projeto esta estruturado amplamente em tres sessões, as duas primeiras compostas dos capitulos 1 e 2, dão a base da perspectiva da filosofia da ciencia que organiza todo o projeto. Os capitulo 3 e 4 estabelecem a relação entre linguagem e mundo a partir do processo de co-constituição entre o aspecto pragmático da linguagem e o que ela permite falantes a alcançarem em termos de recursos cognitivos. Finalmente os capitulos 5 e 6 estabelecem como a dinamica descrita até aqui é compativel com modelos de cognição distribuida e com computacionalismo funcional simultaneamente, contestando uma assunção longamente tida de que estas duas perspectivas são contrárias e mutuamente exclusivas.

1 - A metafísica da inteligência artificial

Uma introdução às suposições metafísicas que permeiam a discussão sobre inteligência artificial. Qualquer discussão sobre inteligência artificial já assume um certo tipo de naturalismo metafísico, vamos investigar que tipo de naturalismo metafísico então, oferece uma perspectiva robusta que não contradiz os atributos necessários da inteligência artificial, e que fornece uma estrutura suficientemente rica para dar conta da cognição como a encontramos no mundo.

Fontes - James Ladyman & Bob Ross, Orly shenker, Wilfrid Sellars, Nancy Cartwright, Rudolf Carnap

2 - Níveis de descrição

Qualquer tipo de explicação científica dos fenômenos encontrados no mundo requer uma explicação, que esteja ciente da escala em que os fenômenos ocorrem, já que diferentes fenômenos têm descrições diferentes baseadas em que o nível explicativo é explorado. Esta perspectiva oferece uma saída para um fisicalismo redutor e para as concepções vitalistas do que é um ser pensante. Para esta seção, o debate mecanismo x vitalismo é revisitado a fim de mostrar, como a questão dos níveis de descrição fornece uma forma diferente de construção teórica, onde estes dois modos de explicação se decompõem. Em termos ontológicos, o naturalismo é a visão de que tudo que existe é o que as ciências naturais descrevem. Em termos epistemológicos, ela é a visão de que as ciências naturais são a nossa melhor e mais confiável prática epistêmica. Em termos semânticos, o naturalismo é a visão de que todos os vocabulários podem, em princípio, ser reduzida (não importa quanto tempo a cadeia de reduções realmente seja) ao vocabulário privilegiado das ciências naturais, particularmente a física.

Fontes - Carl Craver, William Wimsatt, Mark Wilson, Robert Batterman

3 - Epistemologia naturalizada