O ****vazio era tudo o que restava. Um abismo insondável, desprovido de forma, som ou luz. Não sabia se ainda existia ou se era apenas a reminiscência pálida de algo que outrora fora. Sua consciência pairava como uma névoa dispersa, desprovida de sentido, até que a primeira sensação a transpassou como uma lâmina afiada.
Gélido. Úmido. Brutal. O solo a acolhia com a morbidez de um sepulcro aberto, suas entranhas de terra e folhas em putrefação exalando o odor doce e nauseante da decadência. Sua pele reconhecia a textura, mas sua alma rejeitava. Permaneceu estática, como uma oferenda em um rito arcaico, temerosa de que abrir os olhos fosse selar um destino mais atroz do que a penumbra.
Entretanto, não conseguiria escapar. Jamais conseguiu.
A chuva começou, tímida e pérfida, como as lágrimas de um Deus insensível. Cada gota era um açoite, ínfimo mas implacável, que fazia seu corpo baixo e trêmulo, estirado ao chão, responder à insistência da realidade. Uma a uma, as gotas escorriam por sua pele, como dedos frígidos de algo que ansiava por despertá-la ou consumi-la. Ela não reagiu. Seu corpo, ainda cativo entre a vida e a morte, era uma carcaça vazia, incapaz de resistir ou sucumbir. Sua palidez era tingida por terra e as gotas adornavam suas pálpebras cerradas.
Então, veio o som.
No princípio, era indistinto. Longínquo, abafado, como o eco de tambores soterrados sob camadas de terra e esquecimento. Mas ele persistia, obstinado, cada vez mais claro, até que a revelação se fez inevitável: era o som de um coração.
Seu coração.
Ele pulsava como um estranho em sua carne, um invasor indesejado em um corpo que ela acreditava haver abandonado. Por um instante, o pavor a dominou. Seria um espectro alojado dentro de si? Um Deus escarnecedor insuflando vitalidade em um cadáver? Não. Era o próprio tamborilar de sua existência, obstinado, implacável, como uma risada amarga da eternidade.
No farfalhar do vento, no murmúrio das folhas, no insistente gotejar da chuva, ela não queria aceitar. O peso de tudo o que vivera e do que temia reviver sufocava mais que a escuridão. Contudo, uma fagulha traiçoeira de curiosidade a incitou a entreabrir os olhos, um ato diminuto carregado com o peso de um veredicto.
A visão era um quadro de pesadelo, meticulosamente pintado. As árvores ao redor erguiam-se como ossadas disformes, seus galhos tortuosos formando arcos góticos contra o céu soturno e opressor. A luz, filtrada por nuvens densas, não era luz verdadeira, mas um reflexo mortiço, como o brilho opaco de olhos extintos. O mundo parecia inspirar e expirar ao seu redor, lento e voraz, enquanto ela permanecia prostrada, vulnerável, como um sacrifício esquecido. O som de seu coração reverberava em seus ouvidos, uma trilha grotesca para a cena de seu despertar.
E, então, compreendeu: a morte não a desejava. Mas pedia para que o fizesse.
Viver seria muito pior.