tw! menções à sangue e descrição gráfica de ferimento físico.
Era a primeira vez que ela cruzava os limites daquele setor específico da corporação do pai. Uma ala interditada, subterrânea, onde a entrada era regulada por senhas e olhares desconfiados. Uma zona restrita onde braços mecânicos com proporções enormes calibravam componentes que ela ainda não sabia nomear.
Ali dentro, tudo parecia operar sob outra lógica. O som era abafado demais, como se o ar fosse espesso, comprimido, e cada ruído precisasse atravessar camadas de aço e silêncio para ser escutado. Assemelhava-se ao compasso surdo de um coração encerrado numa caixa metálica. As luzes brancas oscilavam num padrão sutil, mas exaustivo, como se vibrassem na mesma frequência do cansaço. O chão, de um polimento doentio, refletia tudo com nitidez quase cruel. O movimento das máquinas, o contorno dos corpos, o peso das intenções.
Ela caminhava dois passos atrás de Tate, como sempre fazia, ainda com o elástico de cabelo entre os dentes como se aquele gesto simples pudesse conter o turbilhão de pensamentos que fervilhavam sob o crânio. O pulso, rabiscado por fórmulas rabiscadas às pressas, denunciava o esforço de memorização. Não por dever, mas por vaidade. Queria que ele visse. Queria que ele se importasse. Queria, de algum modo, ser digna daquele território.
O crachá provisório pendia de seu pescoço, oscilando com os passos contidos, quase cerimoniais. Tate não havia explicado o motivo. Apenas aparecera na porta do laboratório secundário, com a mesma expressão de sempre, e dissera como quem entrega um veredito:
— O pai me pediu para te mostrar o núcleo da montagem. Acho que está na hora de você aprender.
A voz era precisa, com a rigidez de um comando militar. Mas ela escutou outra coisa. Um convite. Um gesto de aceitação. Talvez, pela primeira vez, ele quisesse incluí-la.
— Claro, só... deixa eu pegar meu caderno. — respondeu depressa demais, tropeçando nas próprias palavras como se a língua não acompanhasse a ansiedade.
Tate não esperou.
Ela correu atrás, como sempre correra, o coração acelerado em uma euforia que beirava a vertigem. No elevador de carga, ele ajustou o crachá no jaleco com precisão quase cirúrgica. Quando a porta se abriu na unidade inferior, foi como adentrar outro mundo. Um aroma a atingiu de imediato: a mistura penetrante de plástico, circuitos expostos e metal recém-cortado. Aquilo tinha algo de sagrado. A beleza fria da funcionalidade.
— Ali. O braço da linha Eixo Sete. Estamos testando o novo software de microajuste. Você vai observar a angulação do segundo eixo. Se notar hesitação, me avisa. Não se move sem que eu diga. — As palavras saíam rápidas, automáticas, enquanto ele digitava sem desviar os olhos da tela.
Ela assentiu. Mas ele não viu.
Se ela soubesse como observar, teria feito. Se houvesse alguma pista, uma regra, uma instrução, teria seguido. Mas aquilo era mais um de seus testes. Um de seus jogos silenciosos, nos quais o erro não vinha acompanhado de correção. Apenas de um silêncio glacial e decepções acumuladas.
A linha amarela no chão delimitava o que era permitido. O que era observação e o que era execução. Era apenas tinta, e mesmo assim pesava como um muro.
Do outro lado, a máquina.
Um braço articulado, apelidado como modelo Hydra-T7, com seis eixos de rotação e superfície cromada, descansava em movimento repetitivo. A estrutura inteira fazia lembrar a forma de um braço humano dobrado — ombro, cotovelo, punho — mas sem a fragilidade de tendões, sem a hesitação dos músculos. Movia-se com uma precisão que beirava o poético, como se cada ação tivesse sido ensaiada milhares de vezes para não falhar.
A base do equipamento se ancorava ao piso com parafusos que pareciam brotar do concreto, e seus cabos se entrelaçavam como veias abertas, pulsando dados em vez de sangue. O som que produzia era ritmado, constante. Um zumbido limítrofe entre o elétrico e o cardíaco. Tudo nele era contido, letal, funcional. Havia algo de inquietante naquele silêncio que o cercava, como se o mundo inteiro segurasse a respiração para não interferir.
Ela se aproximou devagar, o coração aos saltos, com a ponta dos dedos quase coçando de curiosidade. Esticou um pouco o pescoço, tentando ver de onde vinha aquele som intermitente. Um clique, uma rotação, uma pausa, outra rotação. O braço captava uma peça cilíndrica em um compartimento à direita e a ajustava, com um leve giro, em outra estrutura logo à frente. O movimento se repetia, milimetricamente igual. A fluidez era hipnotizante.
A superfície reluzente do equipamento refletia a luz branca do teto em traços que pareciam desenhar mapas imaginários no chão polido. Ela estava fascinada. Encantada, talvez, por ver algo funcionar com tanta precisão.
O braço se moveu novamente, e ela não percebeu que dera mais um passo. Só um. O suficiente para cruzar a linha. O suficiente para invadir o domínio da máquina.