21.05.2025 :

O antiquário de Judith parecia suspenso num tempo que não pertencia a mais ninguém. As vitrines embaçadas guardavam peças que já não tinham função, apenas presença: relógios parados, espelhos sem reflexos, livros cujas lombadas rachadas resistiam ao toque. O ar era denso, levemente adocicado pelo odor de verniz envelhecido, misturado ao pó fino que repousava em cada fresta, como um manto de esquecimento.

Ayumi ajustou os óculos na ponta do nariz e se inclinou sobre a bancada de madeira maciça, marcada por décadas de pequenos cortes e manchas. Ali repousava o gramofone antigo, um corpo de madeira escurecida, os entalhes delicados nas bordas quase apagados pelo atrito de mãos e de anos. A corneta de latão, antes brilhante, agora tomada por manchas opacas e pelo verde discreto da oxidação.

Deslizou a mão sobre a superfície áspera, os dedos percorrendo as ranhuras como quem lê uma língua morta e familiar. Tocava com reverência, mas também com pesar. Reconhecia ali não apenas um objeto, mas uma ruína. O braço do aparelho estava rígido, emperrado, e a cápsula fonocaptora quebrada. A agulha ausente, o suporte trincado, o diafragma silente, como um coração que há muito cessou de pulsar.

Com a chave de precisão, desparafusou lentamente as laterais da base, expondo o interior. Uma caixa de som frágil, bobinas enegrecidas pela ferrugem, fios frágeis como nervos interrompidos. Limpou os resíduos com álcool isopropílico e algodão, os movimentos precisos e controlados como quem tenta despertar algo adormecido. Ayumi se permitiu, num raro instante de abandono, imaginar o que o movia. Colocar um disco, ajustar a agulha e ouvir não um ruído mecânico, tampouco o chiado seco do atrito, mas uma melodia. Algo delicado, imperfeito, que vibrasse através da corneta com a vulnerabilidade de uma voz humana, capaz de atravessá-la sem defesas e tocando direto em um ponto que há tanto permanecia intocado. Fazê-la chorar não um pranto retido e amordaçado, mas um choro livre, honesto, como quem enfim abdica do controle.

Não sabia exatamente que música esperava ouvir. Não precisava reconhecer a melodia. Bastava que fosse suficientemente bela, suficientemente dolorosa, para rasgar aquele silêncio espesso que carregava dentro como uma segunda pele.

As engrenagens responderam com alguma resistência, mas o movimento era contínuo, como se por um instante o tempo se curvasse ao seu esforço. Instalou a nova cápsula, encaixou uma agulha substituta de aço e fixou a corneta com os parafusos antigos, que rangiam de leve, como articulações que se dobram pela última vez.

Cada gesto era meticuloso. Cada respiração, contida.

Por fim, posicionou um disco antigo. A superfície de vinil era marcada por sulcos invisíveis, e baixou a agulha com a leveza de quem deposita esperança sobre algo que talvez não mereça. Girou a manivela, sentindo a tensão acumulada das molas, e soltou o freio.

O prato girou.