Pisar naquela sala devolvia um gosto conhecido à boca. Doce demais para ser apenas expectativa; amargo o suficiente para não ser memória. Sentado na cadeira, os dedos batucavam no braço de couro enquanto aguardava com os olhos presos à janela. Ou melhor, através da. Grama cortada, Sol de meio-dia, a juventude zanzando entre brisa e vidas. Permitiu-se desejar, de certa forma até pertencer. Então a porta rangeu, abriu. Junho relevou o pequeno atraso, endireitou a postura, sorriu e esperou a deixa para que começassem a entrevista.

“Por que escolheu o futebol? O que te levou a se identificar com ele? (...)”

— Eu gosto de pensar que o futebol me escolheu, não sei se é careta dizer assim... Meu irmão jogava, então eu jogava também. Não tem muito mistério: no começo, era mais por querer fazer parte. Essa coisa de irmão mais novo sempre querer andar com o mais velho, sabe? — deu uma olhadinha no entrevistador, um pouco saudoso demais. — Corria atrás da bola, recebia na canela o tempo todo e voltava para casa todo apanhado e sujo. Meu irmão era o cara do gol, o camisa dez que fazia todo mundo comemorar, e eu era quem fazia o passe a ele. A gente começou a se entender assim, criamos nossa relação desse jeito. Peguei jeito e gosto pela coisa, não consegui largar desde então.

“E como foi seu processo de ingresso na DSU? (...) Era o que queria?”

— Fui observado por um olheiro, ainda no ensino médio. Recebi a proposta para a universidade, fiz todo mundo lá em casa fazer uma baita festança, mas não finalizei a matrícula. — forçou uma risadinha. — Na época, a vida aconteceu e eu não consegui seguir, na verdade até parei de treinar por uns dois anos, mais ou menos. Então fiquei preocupado de já estar ficando muito velho para não estar numa faculdade e decidi começar de novo, queria que fosse aqui. Voltei à loucura da rotina de atleta e consegui passar.

“Como você definiria a sua personalidade?”

— Me considero uma pessoa fácil de lidar. Falo bastante em campo, tento organizar. Reclamo, xingo e elogio na mesma medida, e sou muito competitivo. Talvez até um pouco demais. No dia-a-dia, gosto de brincar, de estar perto das pessoas batendo papo, essas coisas. De forma geral, acho que sou uma pessoa tranquila, menos quando eu perco.

“Por que escolheu viver na Dokkaebi? Você acha que é um ambiente bom ou ruim para você? Se pudesse mudar, mudaria?”

— Ah, a Dokkaebi é barulhenta, confusa e cheia de gente fora da curva. Isso combina comigo mais do que eu gosto de admitir. Dá para rir, bagunçar, encher o saco da galera... É divertido. Sinto que é bom para mim, então não tenho interesse algum em mudar por enquanto.

“Quais são seus objetivos futuros? Suas ambições, desejos e sonhos? O que espera da sua vida, da sua carreira e dos seus estudos?”

— No futebol, eu quero continuar. Evoluir, jogar bem, vencer. Quero voltar a viver disso, ou pelo menos tentar. Nos estudos, terminar Relações Internacionais entendendo um pouco mais do mundo do que quando entrei, o que deve ser fácil porque não sei de muita coisa. No geral, quero uma vida confortável e que faça sentido. Jogar, estudar, me divertir e ver onde termina.