O final de tarde caía lentamente sobre Claimport, tingindo a sala do apartamento dos Hawkins com um dourado opaco que se infiltrava pelas cortinas. A árvore ainda estava nua, seus galhos artificiais expostos como um esqueleto paciente à espera de sentido. O cheiro de poeira leve dos enfeites guardados misturava-se ao aroma distante da ceia que começava a ser preparada. Ela se ajoelhava no tapete, os dedos deslizando entre fitas antigas e pequenas lembranças de outros anos, até ouvir o som característico da porta se abrindo. Robert, seu pai, entrou primeiro trazendo algo envolto em um pano azul-marinho espesso. Tate vinha logo atrás, a postura rígida demais para quem fingia indiferença — os ombros tensos, o olhar atento, como se carregasse um segredo frágil.
— Trouxemos uma coisa especial este ano! — anunciou o pai, com aquela serenidade que sempre precedia algo importante. Quando o pano foi retirado, o ar pareceu se suspender por um instante. Não era apenas uma estrela. Era um artefato. Metal leve, quase líquido à vista, com veios translúcidos cruzando seu interior como mapas celestes. Microcircuitos delicados desenhavam constelações invisíveis para quem não soubesse olhar. No centro, um núcleo pulsava em azul brando, como um coração contido.
— Nós fizemos juntos. — Robert disse, com orgulho simples. — Ou melhor… Tate fez. Eu só fiz perguntas. Ele está mesmo se tornando um especialista nisso.
— Redundantes. — Tate corrigiu, rápido demais.
Ela sorriu. Aquela dinâmica era uma linguagem própria. Afeto traduzido em ironia. Quando subiu no pequeno banco para colocar a estrela no topo da árvore, sentiu o peso simbólico do gesto. Tate segurou o tronco com firmeza silenciosa. Um estalo suave ecoou — quase musical — e então a luz despertou. Primeiro azul, depois dourada, ajustando-se ao ambiente como se aprendesse a respirar.
— Parece viva… — murmurou.
— É só um algoritmo. — Tate respondeu. Mas não conseguiu esconder o orgulho que lhe escapava pelo canto da boca. E, naquele momento, algo se alinhou: a casa, a árvore, os irmãos, o Natal começando a existir de verdade.
A noite avançou macia, costurada por risadas distantes, pratos sendo recolhidos e passos sonolentos nos corredores. Quando o apartamento enfim silenciou, a sala permaneceu desperta, banhada pelo brilho inteligente da estrela que pulsava em ritmos quase orgânicos. Ela ficou ali sozinha, sentada no tapete, abraçando as próprias pernas, observando como a luz dançava pelas paredes, projetando sombras que pareciam respirar junto com ela. Havia uma melancolia doce naquele instante. A consciência de que a felicidade existe, mas nunca é sólida demais. É feita de instantes frágeis, como vidro aquecido.
Tate apareceu na porta, já pronto para subir. O cabelo desalinhado, a expressão cansada.
— Você vai ficar aí muito tempo? — perguntou, baixo.
— Só mais um pouco.
Ele assentiu, hesitou… e então disse, quase como quem confessa algo sem perceber:
— A estrela ficou bonita.
E então foi embora antes que ela pudesse responder.
[ . . . ]
A madrugada ainda não havia chegado quando os presentes foram finalmente abertos. A árvore agora completa lançava reflexos suaves sobre os pacotes empilhados. Ela se sentou no chão, expectativa tímida vibrando sob a pele. Tyler foi o primeiro, recebendo um kit de pintura. O brilho nos olhos dele foi imediato, quase solar. Abraçou a irmã e Tate ao mesmo tempo, esmagando-os num entusiasmo impossível de conter.
— EU AMEI! Vocês são os melhores!
Tate murmurou algo ininteligível, meio engasgado pelo abraço, mas não tentou se soltar. Quando chegou a vez da garota, ela abriu uma caixa retangular. Dentro, um estojo de flauta cinza-prateado, discreto, elegante. O metal frio sob seus dedos transformou-se imediatamente em promessa.