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TW: luto, morte de familiar (acidente de carro), depressão implícita, isolamento emocional, culpa do sobrevivente, abandono emocional, dificuldades de comunicação afetiva.

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Junho cresceu acreditando que as coisas simplesmente aconteciam porque era assim que tinham que ser. O irmão sempre esteve ali, e isso bastava para que o mundo tivesse uma ordem. Não era uma presença barulhenta, era constante. Junho se acostumou a existir acompanhado, a gostar das coisas porque o irmão gostava, a repetir gestos sem questionar. O futebol entrou na vida dele desse jeito, sem anúncio, sem escolha inicial. A bola vinha rolando e os dois iam atrás. Com o tempo, deixou de ser só repetição: virou gosto próprio, virou alegria. Junho amava jogar. Amava o campo, o movimento, o silêncio que existe dentro de um jogo bem lido. Às vezes sentia que era bom, que tinha algo diferente ali, mas nunca parou para pensar se aquele talento era só dele. Tudo o que fazia parecia misturado demais para separar.

Os rituais surgiram como surgem as manias de família, pequenas e sem importância aparente. Abrir o biscoito recheado, separar as partes, comer primeiro o que não tinha recheio. Era assim porque sempre foi assim. Junho nunca pensou que um dia faria isso sozinho, que um gesto tão simples pudesse virar lembrança. Quando cresceu, não abandonou essas coisas. Não por apego consciente, mas porque o corpo lembrava antes da cabeça. O irmão estava ali, mesmo quando não estava.

Na adolescência, as pessoas começaram a dizer que ele tinha futuro. Treinadores, colegas, olheiros. Junho ouvia tudo com certa distância, mas não com indiferença. Havia orgulho, havia desejo. Ele queria jogar, queria crescer dentro do esporte. A bolsa na Daehan apareceu como uma confirmação externa de algo que ele já sentia por dentro. O irmão comemorou por ele, como se fosse uma vitória compartilhada, e era. Junho aceitou com medo e entusiasmo misturados, ainda aprendendo a desejar sozinho, mas sabendo que queria continuar jogando.

O acidente veio como essas coisas vêm na vida real: sem aviso, sem sentido, sem preparo. Um carro, uma noite comum, uma ligação que mudou tudo. Depois disso, Junho sentiu que o mundo ficou grande demais e ele pequeno demais dentro dele. A paixão pelo futebol não desapareceu, mas ficou ferida. O campo passou a doer. A bolsa virou peso. A Daehan virou um lugar impossível de habitar. Ele se afastou não por falta de amor pelo esporte, mas porque amar naquele momento machucava demais. Junho não desistiu do futebol, ele apenas não conseguiu viver com ele por um tempo.

Sem o irmão, ele percebeu algo que nunca tinha pensado antes: não sabia exatamente quem era, mas sabia o que amava. Essa certeza foi pequena no início, quase invisível. Tudo o que gostava parecia atravessado pela ausência, mas ainda pulsava. Então ele foi embora. Não para abandonar o futebol, mas para encontrar um jeito de continuar sentindo sem se perder.

As viagens começaram despretensiosas e foram se acumulando. Argentina, Colômbia, Brasil. Depois Itália, França, Espanha, Inglaterra. Junho viveu de bicos, de trabalhos temporários, de dias incertos. Dormiu em lugares estranhos, conversou com pessoas que nunca mais veria. O futebol voltou a aparecer como encontro. Não como cobrança, mas como paixão possível. Bastava uma bola para que ele se sentisse inteiro outra vez. Em campos improvisados, percebeu que ainda amava jogar, talvez até mais do que antes, porque agora jogava por escolha. Em cada país, o irmão aparecia de formas inesperadas. Na maneira de observar antes de agir, na calma em organizar o jogo, no cuidado com os outros em campo. Junho entendeu, com o tempo, que não precisava separar o que era dele e o que vinha do irmão. Aquilo tudo fazia parte de quem ele era. O futebol não era lembrança nem substituto, mas sim continuidade.

Quando voltou à Coreia, não voltou inteiro nem resolvido. Voltou consciente. Tentou a Daehan novamente sem o peso de corresponder a um sonho quebrado. Passou em Relações Internacionais quase naturalmente, como quem escolhe algo que dialoga com a vida que viveu. Mas o futebol continuava ali, firme, presente. Pela primeira vez, ele conseguiu sustentar as duas coisas sem culpa. Junho ainda abre o biscoito do mesmo jeito. Ainda joga futebol com atenção e prazer. Ainda sente falta do irmão em dias comuns, nos detalhes que ninguém vê. Mas agora entende que amar o futebol não o afasta da memória o aproxima. Ele não joga apesar do irmão. Joga com ele, mesmo depois da ausência.