O cheiro da sala de reuniões era sempre o mesmo: plástico recém-fabricado, café envelhecido e um sutil traço das máquinas que operavam por trás das paredes. Ela se acomodava na extremidade da longa mesa como um acessório deslocado. Pequena demais para a poltrona giratória e silenciosa o suficiente para passar despercebida. Tate insistira para que estivesse ali. Não por desejar sua companhia num compromisso de tamanha seriedade, mas porque dizia ser essencial aprender a observar sem intervir.

Tinha treze anos, e já cultivava como instinto a arte de desaparecer.

Naquele dia, enquanto um dos engenheiros detalhava o atraso no módulo de resposta autônoma, ela sentiu um leve estalo na boca. O dente — o último de leite — vinha balançando havia dias, mas soltou-se justo ali, como se aguardasse o instante mais impróprio. Caiu sobre a língua, com o gosto metálico do sangue, e ficou. Um corpo estranho no centro de tudo.

Ela não tossiu. Não desviou o olhar. Apenas ergueu discretamente a mão até a boca e recolheu o dente na palma fechada.

A dor chegou depois. Breve, acompanhada de um fio quente escorrendo pelo canto do lábio.

— Tate... — Murmurou, virando-se sutilmente para o irmão ao lado. — Posso ir ao banheiro?

Ele a encarou com aquele tipo de olhar que pesava mais do que qualquer gesto. Não havia afeto, apenas cálculo. Avaliava se a interrupção valia o risco. Dada a disposição da sala, o silêncio se impôs por alguns segundos torturantes. Todos esperavam. E Tate, representando seu pai naquela reunião, desprezava a atenção indevida.

— Ela está bem. — Disse, voltando os olhos ao projetor. — Continue.

E assim foi. Estava bem.

Ela assentiu, muda, e pressionou o lábio inferior entre os dentes para conter o gosto metálico. O dente, ainda preso na mão, tremia levemente junto aos dedos. Fitou o chão cinza, imaculado, e por um breve momento desejou que o dente tivesse caído ali. Visível. Inconveniente. Apenas para obrigar alguém a notá-la.

Mas não caiu.

Permaneceu ali, imóvel, por mais quarenta e três minutos até o encerramento da reunião. Não falou. Não se mexeu.

Depois, caminhou sozinha até o banheiro. Jogou o dente na pia. Enxaguou a boca até que todo o vermelho desaparecesse.