A água morna corria pelas feridas como um juízo tardio. Cada corte, cada arranhão acumulado na fuga, revelava a dor com um atraso cruel, como se esperassem por esse momento de calma para se manifestarem. A bacia de louça, simples e antiga, tremia sob as mãos, enquanto o pano úmido removia a terra, o sangue seco, os vestígios da floresta. A ardência era aguda, mas não gritava. Sussurrava um lamento contínuo, íntimo, quase carinhoso, como se a dor agora tivesse aprendido a reconhecê-la.
Ao longo dos braços e costas, sob as omoplatas, nos flancos; cicatrizes que não pertenciam à infância ou à vida vivida, mas a outra coisa. Marcas finas, meticulosamente espaçadas, algumas circulares como bocas caladas, outras longas e rígidas como os instrumentos que as causaram. Elas mapeavam o corpo como uma cartografia de segredos, um vestígio mudo. Se lembrava de poucos rostos, das luzes, do frio metálico.
Vestir o pijama limpo foi um gesto estranho, quase profano. O tecido era leve, suave, cheirava a lavanda e sabão de coco, e ao tocar a pele latejante, pareceu pedir desculpas. A dor não cessou, mas se escondeu por um instante atrás do conforto.
Um lençol passado a ferro, um travesseiro levemente deformado pelo tempo. Deitou-se ali, envolta por um calor doméstico que não a pertencia, e o corpo doía de outro jeito. Uma dor que vinha do contraste. Da gentileza após aço e controle. O teto era de madeira escurecida, manchado por infiltrações antigas. Ficou olhando para aquelas formas borradas enquanto a mente latejava com perguntas que não sabiam se queriam respostas. O que viria depois? O que era permitido desejar?