Na calçada em frente ao alto, grandioso e urbano prédio onde residia, ela e Anne dividiam a sombra estreita do entardecer. Cada uma segurava um suco de caixinha. Anne abria o seu com a paciência de quem segue uma regra invisível: primeiro o lacre, depois o encaixe do canudo, por fim o gole controlado. Ao lado dela, a garota sutilmente mais alta já tinha derramado metade do próprio suco no uniforme, como se o descuido fosse uma marca inevitável.
— Como você consegue… não deixar as coisas uma bagunça? — perguntou, mais com espanto do que com inveja.
— Treinamento. — respondeu Anne, enxugando discretamente a ponta do canudo antes de beber.
Ela deu de ombros, olhando para a mancha que se alastrava no tecido. — Eu só tenho talento para estragar uniformes.
Anne se virou para ela e, sem qualquer cerimônia, encostou um lenço no canto de sua boca. O gesto era tão simples que parecia natural, como se sempre tivesse feito parte da amizade delas.
— E talento pra fazer amigos. — disse, a voz baixa, mas firme. Como se não apenas fizesse um apontamento, mas quisesse que este fosse rapidamente amarrado em suas ideias.
Ela ficou quieta. Sabia que não era verdade; sabia que, da escola inteira, Anne era a única que tinha permanecido. Talvez por insistência, talvez por cuidado, talvez porque via nela algo para além das boas notas, ansiedade social, uma família de renome e perfeccionismo.
Ao invés de responder, roubou um gole do suco da amiga. A provocação trouxe um sorriso rápido, quase infantil, antes que devolvesse a caixinha.
— Para isso também. — murmurou, e as duas riram baixinho, como se aquele pequeno segredo fosse suficiente.
E como se Anne não quisesse terminar de manchar seu uniforme pelo gesto perturbador demais ao próprio juízo.