A grosso modo, aceleracionismo é uma tese sobre a relação entre economia, tecnologia e suas consequências. Tanto as alas da direita quanto da esquerda da posição começam com a mesma ideia constitutiva e, ainda que suas perspectivas divirjam, é possível investigar suas presunções basais sobre economia, tecnologia e sociedade em concerto. Para fazê-lo, é necessário apresentar a origem dessas suposições e oferecer uma perspectiva teórica diferente para a concepção de tecnologia que está na base do pensamento aceleracionista, explorando a maneira a qual alterando essas bases, a posição muda ou ganha outras possibilidades práticas.

O programa teórico do aceleracionismo busca pensar as possibilidades engendradas por desenvolvimentos tecnológicos e as consequências dessas possibilidades. Contudo, é surpreendente perceber que no corpo de trabalho canônico do aceleracionismo não encontramos uma consideração clara do que tecnologia é, o que faz e como faz. A perspectiva que esse texto oferece é que o aceleracionismo como posição filosófica é profundamente afetado por uma concepção de tecnologia contrabandeada por outros autores, nunca propriamente e plenamente desenvolvida. Essa falta de engajamento direto com filosofia da tecnologia parece uma fonte fértil de maneiras as quais esta posição pode ser desenvolvida, tanto para além de suas origens distópicas, quanto como um programa por completo pragmático. É importante salientar, no entanto, que essa falha não é exclusividade da facção direita do aceleracionismo e sim uma questão que ambos os lados precisam enfrentar.

Aceleracionismo na sua incepção assume que o desenvolvimento tecnológico possibilitado pelo capitalismo, contextualizado principalmente a partir da invenção e adoção quase que irrestrita do computador pessoal e da subsequente instanciação da sua distribuição global via redes de comunicação em massa, provocou uma aceleração na velocidade das mudanças sociais, — exemplificado pela introdução de meltdown — onde o capital em si é o agente de transformação.

The story goes like this: Earth is captured by a technocapital singularity as renaissance rationalitization and oceanic navigation lock into commoditization take-off. Logistically accelerating techno-economic interactivity crumbles social order in auto-sophisticating machine runaway. As markets learn to manufacture intelligence, politics modernizes, upgrades paranoia, and tries to get a grip.

A estória começa assim: O planeta é capturado por uma singularidade do tecnocapital, à medida que a racionalização renascentista e a navegação oceânica convergem na decolagem da mercantilização. Acelerar logisticamente a interatividade tecno-econômica esmigalha a ordem social em uma plataforma para auto-sofisticação das máquinas. Conforme os mercados aprendem a fabricar inteligência, a política se moderniza, atualiza a paranoia e tentam se recompor.

A aceitação desse fato base como uma espécie de mito fundador independe da orientação política do aceleracionismo: se o de direita, r-accel, assume que esse processo de mudança tecnológica acelerada produz inevitavelmente o fim da raça humana através da construção de inteligência sintética; o de esquerda, l-accel, acessa essa dimensão de catástrofe iminente através da invocação do espectro de mudanças climáticas e da erosão social causada pelo capitalismo tardio. Embora essas posições sejam divergentes no que diz respeito ao entendimento dos processos que estão sendo deflagrados pelo capital, a constituição desses processos não é colocada em questão.

Esse texto coloca em questão a noção de desenvolvimento tecnológico usada por ambas as posições, que parece problemática na medida em que é usada de maneira irrestrita como se os campos tecnológicos fossem autônomos e dissociados dos agentes que os constituem, assim como da sociedade que permite sua existência.

Não é possível encontrar uma noção autônoma de tecnologia no trabalho do CCRU/Nick Land, sendo essa apresentada então como uma mera consequência de processos sociais — estes sim determinados pelo capital. Neste fragmento, é possível perceber que os processos sociais são absolutamente opacos do ponto de vista do humano. Esta opacidade certamente gera consequências na medida em que estabelece a ideia da posição chamada de unconditional-accel, que pode ser resumida pelo seu slogan "let go", ou seja: considerando a falta de agência do humano frente aos processos engendrados por essa inteligência inacessível, a única saída possível é a da aceitação.

Ao desenvolvermos uma concepção mais robusta de tecnologia, no entanto, será possível construir uma posição onde a tecnologia é justamente o que dá agência a seres sapientes, e ao que os permite procedimentos de correção de curso tão necessário para remediar os processos engendrados pelo capital. Ainda que Srnicek e Williams em Inventing the Future tentem a sua própria versão disso, a falta de uma concepção de tecnologia própria os impede de dar conta da dimensão da questão. Suas soluções e questões ainda que ancoradas em discussões contemporâneas de políticas públicas, são absolutamente impensáveis sem um movimento de contra hegemonia bem sucedido, e embora isso não seja um fato negligenciado por eles, o livro é incapaz de articular a relação entre essa contra-hegemonia necessária e tecnologia.

A razão sobre suspeita

Na introdução de Fanged Noumena, os filósofos/autores Ray Brassier e Robin Mackay delimitam a importância de Nietzsche, Marx e Freud para Nick Land. Embora a desconfiança da razão não seja exatamente o ponto de contato, entre Land e os autores, esta parece ser o que da a origem da concepção implícita de tecnologia que é avançada por Land.

De acordo com Brassier (2016), estes três pensadores introduzem uma discrepância fundamental entre o que nós achamos que desejamos e fazemos e as verdadeiras forças que de fato condicionam o que desejamos e fazemos. Para cada um deles, é uma força distinta: vontade de potência, antagonismo entre classes e repressão sexual. Estas forças operam por trás de nós de tal maneira que nossa própria consciência nos convence que o que fazemos e desejamos são fruto de nossa própria volição. Os verdadeiros fatores causais: econômicos, culturais e físicos trabalham no ponto cego da razão.

Marx e Freud caracterizam estas forças além do escopo da razão em termos de produção e pulsão, respectivamente, oferecendo quadros referenciais para explicação de processos do inconsciente. Esses fatores são o que permitem essa operação do inconsciente ser legível tanto cognitivamente quanto em termos práticos. Para ambos, os determinantes inconscientes da razão são encontrados através da teoria — é esta que faz o inconsciente conceitualmente tratável. Eles usam a razão para expor a pretensa autonomia da razão, e desenvolvem ferramentas conceituais que explicam os mecanismos pelos quais a autoconsciência racional é sistematicamente minada por forças inconscientes. Para Nietzsche, no entanto, o determinante inconsciente é identificado com um princípio vital e como tal, existindo além de qualquer tipo de justificação conceitual.

A construção que se espalha por toda teoria crítica no pós-guerra é a seguinte: ao equiparar saber e julgamento, e entender julgamento como processo instrumental de construção do estado atual das coisas, o desejo de revolução torna-se o desejo de contestação dos mecanismos que constituem a razão. Sua recorrência contemporânea é um reflexo desse referencial como onipresente, mesmo que sua própria construção possa ser diagnosticada como outro exemplo de engano inconsciente. A suposta renúncia do projeto da racionalidade é uma consequência da ingenuidade sobre as condições semânticas da inteligibilidade conceitual.

Contudo, essa perspectiva negligencia o fato de que não haveria status normativo (verdade ou falsidade no nível da afirmação, certo ou errado no contexto da ação) sem atitudes práticas que tratam as afirmações e ações como certas ou erradas. A noção de uma atitude prática (acreditar) que não seria uma atitude em relação a algum status normativo (acreditar em algo), seja de afirmação ou ação, é incoerente. A interação entre atitudes práticas e estatutos normativos os constitui como mutuamente dependentes. Para Brandom, isso significa que a aplicação de um conceito é indissociável de sua instituição prática. Essa redução da razão apela para uma divisão entre os status normativos e as forças que geram esses status, e insiste em uma separação entre atitudes práticas e estados normativos, relegando os últimos a puramente ilusórios e reduzindo o primeiro a forças desprovidas de conteúdo racional. Quando dizemos que alguém acredita em algo admitimos que este alguém pode estar correto ou incorreto ao identificar em que acredita.

Aceitar a perspectiva de que a aplicação de um conceito é indissociável de sua instituição prática é aceitar que as normas puramente formais de engajamento racional com o universo e entre si (as normas que orientam o uso de conceitos em julgamentos) não conferem autoridade ao agente, mas o compelem a agir de acordo com sua autoridade: uma conformidade que precisa ser constantemente renegociada e nunca pode ser dado como certa. Os interesses da razão não são homogêneos com os interesses do eu tanto como sujeito que maximiza a utilidade ou como organismo biológico em busca de sobrevivência, mas são congruentes com os da totalidade dos agentes racionais, coletivamente engajados em projetos explicativos.

Filosofia da tecnologia

A filosofia da tecnologia tende a considerar o fenômeno da própria tecnologia como já resolvido; ela o trata como uma "caixa preta", um fenômeno dado, unitário, monolítico e inescapável. Seu interesse não é tanto analisar e compreender esse fenômeno em si, mas compreender suas relações com a moralidade, a política, a estrutura da sociedade, a cultura humana, a condição humana, ou a metafísica. Sob essa perspectiva, tecnologia é o meio para um fim e uma atividade humana. Estas duas definições de tecnologia pertencem uma à outra, pois postular fins, obter e utilizar os meios para eles é uma atividade humana. A fabricação e utilização de equipamentos, ferramentas,  máquinas, as necessidades e fins que atendem, são aspectos cruciais do que tecnologia é. Todo o complexo desses dispositivos é tecnologia e a própria tecnologia é uma ferramenta. Sendo assim, a concepção atual de tecnologia segundo a qual é um meio e uma atividade humana, pode, portanto, ser chamada de definição instrumental e antropológica da tecnologia.

A abordagem baseada numa concepção onde a tecnologia é uma ferramenta tende a uma concepção de neutralidade da mesma. Ela pode ser usada, mal utilizada ou recusada. O martelo pode ser usado para cravar um prego ou quebrar um crânio. O usuário da ferramenta é exterior a ela (como no caso do martelo) e ao mesmo tempo a controla. A abordagem de sistemas à tecnologia faz com que esta concepção abarque os humanos, sejam eles consumidores, trabalhadores ou outros. O indivíduo não está fora do sistema, mas é sua parte constituinte. Ao incluir nesta abordagem campos como a publicidade, propaganda, administração governamental como ferramentas tecnológicas, é mais fácil ver como o sistema tecnológico pode controlar o indivíduo do que o contrário, como no caso de ferramentas simples. A noção conhecida como tecnologia autônoma, de que ela está fora do controle humano e tem vida própria, faz mais sentido com sistemas do que com ferramentas. Os sistemas tecnológicos que incluem publicidade, propaganda e governo podem persuadir, seduzir ou forçar os usuários a aceitá-los.

O CCRU radicaliza essas perspectivas dando para a razão o papel de marionete de processos exteriores, entendendo nessa perspectiva que 'exteriores' não se refere a fatores sociais e econômicos, como esse processo genealógico de suspeita da razão poderia implicar, mas uma espécie de lado de fora que se alinha a realidade impessoal de um universo largamente alheio a presença humana — como o título da coletânea de textos de Nick Land, Fanged Noumena, sugere. Usando a perspectiva sistemática de tecnologia em concerto com a suspeita da razão, chegamos a uma imagem da tecnologia como um processo alheio aos desejos humanos, que busca cada vez maior autonomia a fim de finalmente obter consciência e dar início ao fim do humano. Nessa imagem, a fusão entre capitalismo e tecnologia fica claro, o capitalismo é a forma que a agência desse processo tecnológico assume , essa concepção é compartilhada por todas as outras posições dentro do aceleracionismo, simplesmente pela falta de uma definição própria.