Embora sempre soubesse que queria ser escritora e apesar de ter cursado algumas cadeiras de escrita criativa na faculdade, optei por não fazer um mestrado na área. Via com desconfiança a ideia de que o melhor lugar para encontrar minha voz fosse uma sala com quinze outros jovens escritores tentando encontrar suas vozes.
Hoje em dia, há muitas instituições absurdamente caras onde é possível estudar artes. Algumas são fabulosas; outras, nem tanto. Se quiser seguir esse caminho, vá em frente, mas saiba que é uma troca e certifique-se de que ela realmente lhe traz benefícios. O que a escola recebe com essa troca é óbvio: seu dinheiro. O que o aluno recebe depende da própria dedicação ao aprendizado, da seriedade do curso e da qualidade dos professores. É verdade, esses cursos podem ajudá-lo a ser mais disciplinado, a aprimorar seu estilo e até, quem sabe, a ter mais coragem. Talvez lá você encontre também sua tribo: colegas que poderão vir a lhe oferecer valiosos contatos profissionais e apoio no decorrer de sua carreira. Com sorte, quem sabe você possa até encontrar o mentor de seus sonhos na forma de um professor particularmente sensível e dedicado. Porém, o que me preocupa é que, muitas vezes, aquilo que os estudantes de artes buscam em uma formação de nível superior não é nada além de uma prova de sua própria legitimidade — uma prova de que levam a sério o ofício criativo, como atesta o diploma.
Se já fez um curso superior em alguma área criativa, não se preocupe! Com sorte, ele terá ajudado a melhorar sua arte, e, mesmo que esse não seja o caso, tenho certeza de que mal não fez. Use as lições que aprendeu na faculdade para aprimorar seu ofício. Se estiver fazendo uma formação em artes atualmente e puder bancá-la sem dificuldades, tudo bem também. Se tiver uma bolsa de estudos, melhor ainda. Se tem a sorte de estar onde está, use-a a seu favor. Trabalhe com afinco, aproveite ao máximo as oportunidades cresça, cresça, cresça. Esse pode ser um belo período de estudo focado e expansão criativa. Contudo, se estiver considerando a possibilidade de fazer algum tipo de curso superior em artes e não estiver nadando em grana, acredite no que estou lhe dizendo: você pode viver sem ele. Pode, sem dúvida, viver sem as dívidas, que são sempre o abatedouro dos sonhos criativos.
“Bem, a verdade é que eles nem sempre param muito para pensar. A maioria dos artistas são pessoas impulsivas que não têm costume de planejar com muita antecedência. Artistas, por natureza, são apostadores. Apostar é um hábito perigoso. Mas sempre que você cria arte, está apostando. Está lançando os dados e torcendo pela chance remota de que o investimento de tempo, energia e recursos que está fazendo agora traga grandes retornos mais tarde — torcendo para que alguém compre seu trabalho e para que você consiga alcançar o sucesso. Muitos de meus alunos estão apostando na possibilidade de que essa formação caríssima valha a pena a longo prazo”.
Entendo perfeitamente. Também sempre fui criativamente impulsiva. São os ossos do ofício da curiosidade e da paixão. Estou sempre fazendo apostas e me arriscando em meu trabalho — ou, pelo menos, tento estar. Mas, se você vai apostar, esteja ciente de que está apostando. Nunca lance os dados sem saber o que está fazendo. E certifique-se de que pode de fato cobrir suas apostas (tanto emocional quanto financeiramente).
Acontece que as artes não são uma profissão, pelo menos não como as profissões comuns. No caso da criatividade, não há estabilidade de emprego nem nunca haverá. Afundar-se em dívidas para se tornar um criador, portanto, pode transformar em estresse e fardo algo que só deveria ser prazeroso e libertador. E, depois de tanto investimento em sua formação, os artistas que não alcançam o sucesso profissional imediatamente (a maioria) podem se sentir fracassados. Esse sentimento de fracasso pode afetar sua autoconfiança criativa e talvez até impedi-los completamente de seguir criando.
Em vez de contrair empréstimos para fazer um curso superior em artes, por que você não tenta explorar o mundo com mais coragem, mergulhar mais fundo nele? Ou talvez mergulhar mais fundo e com mais coragem em si mesmo? Faça uma avaliação honesta da formação que você já tem: os anos que viveu, as dificuldades que enfrentou, as habilidades que adquiriu ao longo do caminho. Se ainda for jovem, abra bem os olhos e deixe que o mundo o eduque ao máximo. (“Erga-se muito além dos livros de escola!”, advertiu-nos Walt Whitman. Pois faço também a mesma advertência: há muitas maneiras de aprender que não necessariamente envolvem salas de aula.) E sinta-se à vontade para começar a compartilhar seu ponto de vista por meio da criatividade, mesmo que seja apenas uma criança. Se você é jovem, você enxerga as coisas de uma maneira diferente da minha, e quero saber como as enxerga. Todos nós queremos. Quando olharmos para o seu trabalho (o que quer que seja), vamos querer sentir sua juventude, aquele frescor do recém-chegado. Seja generoso conosco, nos dê essa oportunidade. Afinal de contas, já faz tempo que muitos de nós não estão mais onde você se encontra agora. Se for mais velho, acredite que o mundo o vem educando durante todo esse tempo. Você já sabe muito mais do que pensa que sabe. Não está acabado; está meramente preparado. Após certa idade — não importa como você vem empregando seu tempo —, é muito provável que tenha se formado doutor em vivência. Se ainda está aqui, se sobreviveu até agora, é porque sabe alguma coisa. Precisamos que você nos revele o que sabe, o que aprendeu, o que viu e o que sentiu. Se for mais velho, existe uma boa chance de que já possua absolutamente tudo o que precisa para levar uma vida mais criativa — exceto a confiança necessária para de fato fazer o trabalho. Mas precisamos que você faça o trabalho. Jovem ou velho, precisamos do seu trabalho para enriquecer e informar nossas próprias vidas. Então liberte-se de seus medos e de suas inseguranças e de todas as ideias incômodas sobre o que acredita ser necessário (e quanto acredita ser preciso pagar) para obter legitimidade criativa. Porque estou lhe dizendo que você já tem legitimidade criativa, pelo simples fato de existir, de estar aqui entre nós.